Joamar Zanolini Nazareth
“A missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos.”
Espírito Verdade – O Que é o Espiritismo
Indagado outro dia por pessoa “meio espírita” – ao saber-me adepto do Espiritismo – se sou eu um “espírita kardecista”, não resisti à ingênua pergunta e pacientemente teci as considerações necessárias para esclarecer o pobre cidadão que sou… ESPÍRITA!
O pior é que tal equívoco é cometido por muitos trabalhadores que militam em inúmeras casas espíritas, distraídos de compreenderem o real significado de abraçar os princípios espíritas. Está certo que não devemos nos apegar às exterioridades e ficarmos digladiando por aí por tantas confusões e divergências que se criaram por interpretarmos muitas coisas de modo ligeiramente diverso, todavia cabe o dever a cada tarefeiro de buscar – dentro da fraternidade e respeito – esclarecer aos companheiros e companheiras sobre falhas evitáveis que cometemos em nosso desconhecimento e às vezes até preguiça de estudarmos e compreendermos melhor o Espiritismo.
Os termos Espiritismo e espírita foram neologismos nascidos no trabalho de codificação. Allan Kardec, sob a inspiração e orientação dos luminares espirituais enxergou a necessidade de se criar expressões novas para designar uma nova doutrina. Está certo que a Doutrina Espírita não inventou a mediunidade e as Leis Naturais, mas abriu um novo campo de interpretação e entendimento dessas mesmas leis de modo diverso aos então existentes. Para uma nova ciência, ao menos alguns termos novos.
Portanto, aquele que crê nos princípios básicos do Espiritismo e que os traz consigo na visão da vida, é ESPÍRITA. Apenas isso! Em tese, trata-se de lamentável pleonasmo dizer-se Espírita Kardecista. E pior, traz prejuízos à compreensão popular, que pensaria assim haver uma doutrina “criada” por um homem de nome Kardec.
A intenção de quem assim se expressa pode ser até louvável, mas complica e perturba a cristalina e isenta interpretação do Espiritismo, endossando e trazendo à baila sentimentos atávicos que a maior parte dos trabalhadores espíritas ainda traz de modo vigoroso em seu mundo íntimo. De tal posicionamento foi um passo para outras tristes expressões, e hoje temos uma febre de “istas”: espírita chiquista, divaldista, yvonista, raulista, clovista, jorgista, cientificista, igrejista, filosofista, ubaldista, etc. e até outros não “istas”, tais como laico, oriental, mesa branca, etc.
E acabamos por despencar morro abaixo em outros lamentáveis títulos: espíritas sofistas, partidaristas, exclusivistas, egoístas, ensejando a multiplicação não dos pães, mas dos brigões, indelicados, vaidosos, donos da verdade, intelectuais frios, etc.
Não sou o dono da verdade, e quem queira pode de minhas palavras discordar, mas do mesmo modo que já convidado, declinei de filiar-me a partidos políticos, usando uma simples resposta que aprendi ao longo da vida: “ o nome já complica; se é partido já começou mal, pois na vida em sociedade deveríamos nos dar as mãos e formar um inteiro e não partidos…” , do mesmo modo só posso ficar triste com tantas discussões.
E óbvio que o Espiritismo é uma doutrina de livre pensar, que não deva haver amarras, que sendo o ser humano uma individualidade, jamais haverá duas pessoas que pensem rigorosamente igual, e por isso natural que haja visões diferenciadas, mas daí a criarmos campos de batalha nos púlpitos das instituições espíritas, nos jornais e revistas, nos programas radiofônicos e de televisão é muito triste e expõe à sociedade o câncer que nos toma o coração – no sentido de sensibilidade, sentimentos e emotividade.
Permito-me aqui reproduzir pequeno trecho do editorial do jornal “A Flama Espírita”, em sua edição n° 2.753, de julho/agosto/2004, de nossa autoria, em que tratamos do tema:
“Sempre haverá interpretações diferenciadas de certas questões em nossa Doutrina; somos seres humanos, individuais, imperfeitos, com pleno direito de pensar livremente, fugindo a quaisquer formas de imposição de idéias ou manifestações de crença cega.
Se há diferenças, a palavra de ordem é UNIÃO… Engana-se quem pense em uniformização de pensamentos e idéias. O amadurecimento não reduz o direito de exercer nosso livre-arbítrio e escolher caminhos para nossas escolhas, incluindo-se aí nossas interpretações e quais aspectos do Espiritismo mais desejemos destacar. A única coisa que não podemos fazer é deturpar os princípios básicos que formam a Doutrina Espírita.
Por isso usemos mais de bom senso e discernimento, elegendo a DISTINÇÃO e o AMOR como posturas lúcidas em nosso esforço de trabalho na seara espírita. Respeitemos os que pensam diferentemente de nós. O verdadeiro espírita não ataca outras correntes de pensamento religioso, muito menos os próprios confrades porque pensem de modo diverso.
A verdade absoluta está com Deus; cada um de nós carrega uma parte dela. Construamos a união. Lembrando Vicente de Paulo, em “O Livro dos Médiuns” – cap. XXXI, item XX: “ A união faz a força. Sede unidos, para serdes fortes. (..) mister se faz que uma indulgência e uma tolerância recíprocas presidam as vossas relações”.
Devemos criar fóruns de debates, discutir – no bom sentido – e analisar as diversas interpretações, defender aquilo que julgamos ser o mais fiel aos postulados básicos do Espiritismo, escrevermos artigos, matérias diversas, conversarmos nos programas, e todas as modalidades possíveis de discussão no afã de excluirmos do trabalho espírita os vícios, manias, atavismos e práticas estranhas, mas SEMPRE com RAZÃO, LÓGICA e BOM SENSO, e NUNCA com desrespeito, paixões partidárias, ataques, agressões verbais ou não, em uma autêntica rinha de galos, em que cada um se julga o mais bem preparado espírita e o que detém a chave do entendimento pleno dos ensinamentos dos espíritos.
POR QUE ESTAMOS FALANDO DISSO?
Alguém que tenha se animado a continuar lendo este artigo, pode indagar: – afinal de contas, se o título na epígrafe diz “O Legado de Kardec”, porque raios está ele falando de união e respeito?
Ora, sensato leitor, um dos maiores legados de nosso valoroso codificador foi a de mostrar-se lúcido, correto e firme, sem porém jamais desrespeitar a quem quer que o atacasse ou expressasse opinião diversa. A TOLERÂNCIA foi uma das virtudes mais pregadas pelo missionário francês.
Neste ano de comemoração do bicentenário de Allan Kardec estamos tendo – o que é ótimo – uma abençoada multiplicação de livros, matérias em jornais e revistas, palestras, congressos, simpósios, encontros e outros eventos diversos, etc., abordando a personalidade, a história e os feitos do grande e emérito codificador da Doutrina Espírita.
Está sendo uma oportunidade ímpar de resgatarmos a figura e as palavras de Kardec, já que com mais de 3.000 títulos de livros espíritas congestionando as vistas e as idéias dos leitores, têm ficado esquecidas as imortais e incomparáveis obras que dão base e sustentação à ciência, filosofia e religião espírita trazidas por Allan Kardec.
E tanto se tem falado de Kardec, que provavelmente, ao final deste ano, muitos saberão até o número do sapato que o codificador usava, seus endereços, de como ele gostava de usar o bigode, etc.
Brincadeiras à parte, o que queremos chamar atenção é para uma pergunta: nessas comemorações do bicentenário, estamos aproveitando para conhecer o homem e a obra ou nos prendemos a detalhes que em essência – apesar de importantes – não fazem plena justiça à grandeza da obra do missionário de Lyon?
Desde a postura do educador Prof. Denizard Hippolyte-Léon Rivail até a do insigne codificador Allan Kardec, temos farto material de reflexão e estudo, análise e elucubração ampla, que nos pede concentração e muito trabalho.
Eis o motivo de nossas preocupações nestas linhas.
Em vez de nos concentrarmos no principal, ficamos nos debatendo por querelas, descuidandonos da grande missão a que está incumbido o Espiritismo.
Repetimos: temos o direito e devemos exercê-lo, de defender nossos pontos de vista e pensar estarmos trilhando pelas melhores interpretações da verdade; contudo, não seja nosso posicionamento a motivação de intérminas “guerras” contra os demais.
Em seu discurso por ocasião de banquete realizado em 19 de setembro de 1860 (*), Allan Kardec pronunciou espetaculares palavras que nos fazem questionar que tipo de espíritas somos nós, e se verdadeiramente estamos compreendendo a finalidade de nossa incursão à Doutrina Espírita. Retiramos alguns pequenos trechos, suficientes para nos provocar profundas reflexões:
“(…) Há, meus senhores, três categorias de adeptos: uns que se limitam a crer na realidade das manifestações e que procuram, antes de tudo, os fenômenos; o Espiritismo é simplesmente para eles uma série de fatos mais ou menos interessantes. Os segundos vêem outra coisa nele além dos fatos, compreendem o seu alcance filosófico, admiram a moral que deles decorre, mas não a praticam; para eles, a caridade cristã é uma bela máxima, e nada mais. Os terceiros, finalmente, não se contentam de admirar a moral: praticam-na e aceitam-lhe as conseqüências. Bem convencidos de que a existência terrestre é uma prova passageira, esforçam-se por aproveitar esses curtos instantes, para marchar na senda do progresso que lhes traçam os Espíritos, empenhando-se em fazer o bem e em reprimir as suas más inclinações; as suas relações são sempre seguras, porque as suas convicções os afastam de todo pensamento do mal; a caridade é, em toda ocasião, a regra da sua conduta: são esses os verdadeiros espíritas, ou, melhor, os espíritas-cristãos.
(…) É preciso, pois, evitar o deixar-se seduzir pelas aparências, tanto da parte dos Espíritos, quanto da dos homens; ora, eu o confesso, aí está uma das maiores dificuldades; mas, nunca se disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil; tem seus escolhos que se não podem evitar senão pela experiência. Para escapar à cilada, é preciso, antes de tudo, fugir ao entusiasmo que cega, ao orgulho que leva certos médiuns a acreditarem-se os únicos intérpretes da verdade; é preciso que tudo seja friamente examinado, maduramente pesado, confrontado, e, se desconfiamos do próprio julgamento, o que é muitas vezes mais prudente, é preciso recorrer a outras pessoas, segundo o provérbio: que quatro olhos vêem melhor do que dois. Só um falso amor-próprio ou uma obsessão podem fazer persistir em uma idéia notoriamente falsa e que o bom-senso de cada um repele. “
Já prenunciando as divergências que surgiriam no seio do próprio movimento espírita, até como estratégia dos infelizes espíritos que prosseguem tentando inutilmente fugir da luz e atrapalhar-lhe a marcha, apenas adiando o inevitável encontro consigo mesmos, aduz nosso codificador em 1862 (*):
“A tática, posta já em prática pelos inimigos dos espíritas, mas que eles vão empregar com novo ardor, é tentar dividi-los criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e o ciúme. Não vos deixeis cair no laço, e tende como certo que quem quer que procure um meio, qualquer que seja, para quebrar a boa harmonia, não pode ter boa intenção. É por isso que vos recomendo useis da maior circunspecção na formação dos vossos grupos, não somente para vossa tranqüilidade, como no próprio interesse dos vossos labores.
A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, não há recolhimento possível se se está preocupado com discussões e com a manifestação de sentimentos malévolos. Não haverá sentimentos malévolos se houver fraternidade; não pode, porém, haver fraternidade em egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Entre orgulhosos que se suscetibilizam e ofendem por tudo, ambiciosos que se sentirão mortificados se não tiverem a supremacia, egoístas que não pensam senão em si, a cizânia não pode tardar a introduzir-se, e com ela a dissolução. É o que desejariam os nossos inimigos, e é o que eles procuram fazer.
Se um grupo quer estar em condições de ordem, de tranqüilidade e de estabilidade, é preciso que nele reine o sentimento fraternal.
(…) Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita na prática da caridade por pensamentos, palavras e obras, e persuadi-vos de quem quer que nutra em sua alma sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja ou de ciúme, mente a si próprio se tem a pretensão de compreender e praticar o Espiritismo.
(o destaque é nosso)
Queridos(as) irmãos(ãs), apesar dos percalços e obstáculos, tenhamos mais paciência com os (as) companheiros (as) de ideal espírita, e mais serenidade e humildade em relação a nós mesmos, sob pena de usarmos o diamante da Revelação Espírita como arma a ferir os nossos irmãos de caminhada na Terra.
E se alguém disser que não tem certeza se concorda com nosso professor Kardec, lembremos que é tão lúcida sua obra, que ele mesmo nos permite discordar de seus escritos e reflexões, pedindo-nos tão somente que não deixemos de usar a lógica, a razão e o bom senso. Novamente ressaltamos que a verdade absoluta está em Deus; cabe-nos a busca racional e inteligente de abarcá-la cada dia mais.
O LEGADO DE KARDEC
Realmente comemorando os duzentos anos de nascimento do nosso codificador, aproveitemos dele o que tem de melhor, não desviando nossa atenção e nossos esforços de construção de uma sociedade mais elevada moral e espiritualmente, onde compreendendo o que somos e porque estamos aqui – mesmo que com pequenas variações de idéias –, tenhamos a certeza una de que Deus nos ama e ampara, e mesmo que aos “tropeços” estamos caminhando para a frente. Tomemos posse do legado de Allan Kardec!
Só poderíamos encerrar nossas despretensiosas palavras, exaltando:
Ave, Allan Kardec! Todos nós espíritas muito lhe agradecemos pela incontestável prova de amor que você deu à Humanidade e à verdade. Façamos a nossa parte!
Bibliografia:
(*) O Que é o Espiritismo, Allan Kardec, cap. “Biografia de Allan Kardec”, FEB, 27ª ed., 1983, Rio de Janeiro.
(Do Anuário Espírita 2005)