Ney da Silva Pinheiro
“A missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos.”
“Se a alma não sobrevivesse ao corpo, o homem só teria por perspectiva o nada, do mesmo modo que se a faculdade de pensar fosse produto da matéria. Se não conservasse a sua individualidade, isto é, se se perdesse no reservatório comum chamado o grande todo, como as gotas d’água no oceano, seria igualmente, para o homem, o nada do pensamento e as consequências seriam absolutamente as mesmas do que se não houvesse alma”. (Obras Póstumas, de Allan Kardec, página 53, n° 7, na tradução de Evandro Noleto Bezerra).
A realidade da sobrevivência e da reencarnação são verdades, cuja aceitação pela maioria, preparará novos tempos para a Humanidade. É Emmanuel que sentencia: – “Uma alvorada gloriosa sucederá às angústias deste crepúsculo.”
Para nós Espíritas, como aprendemos e entendemos, a morte é uma etapa na demanda para o nível espiritual, nunca, porém, o caminho para o nada; o nada que nada explica e que não existe na obra Divina. A morte, conceituada como um aniquilamento absoluto, é uma redundância, uma incoerência, face a nossa hibernal ignorância; porém, não tenhamos dúvida, é uma lei que se processa na ordem Divina. Segundo A Grande Síntese: – “Nascer e morrer; morrer e nascer: essa é a trama da vida”. E acrescenta: – “A morte é condição de nascimento e o nascimento é condição de morte… Certo que tudo morre para renascer”.
Evidente que, neste nível de entendimento, em que a maioria se faz presente na Terra, a causa da incapacidade de inteligência do problema, o fenômeno natural de renovação apresenta-se, para os que vivem sob o tormento da dúvida, como algo sombrio, inquietante, angustiante, sofrido, enigmático, gerando verdadeira neurose.
Há os que procuram ignorá-la, pensando, assim, fugir ao problema, como se do problema fosse possível fugir.
Compenetremo-nos de que a morte, mesmo a que venha por um acidente qualquer, não tenhamos dúvidas, é uma inquestionável decisão Divina, pois, como registra o Evangelho de Jesus, “uma folha não cai, senão pela vontade de Deus”.
Milhões de criaturas têm vivido e morrido, ignorantes da sua condição de seres imortais, escravos da falsidade, da sensualidade, da avareza sórdida, do orgulho e do egoísmo dissolvente, flagelos que açoitam, inclementes, a maior parcela da Humanidade, que, no entanto, não se forra ao processo das leis da vida.
As religiões dogmáticas e literalistas, com suas solenidades e ritos fúnebres, apresentam um quadro imaginário, de por que se nasce e por que se morre, permanecendo incapazes, na superfície do problema.
O homem, em sua maioria, foge com certo fastio a qualquer esclarecimento ao problema da morte e da sobrevivência, sentindo um medo disfarçado, no seu subconsciente, só em pensar na inexorabilidade da morte, e, assim, fugir da fatalidade redentora da vida.
“O homem moderno – escreve Emmanuel – esbarra ante os pórticos do sepulcro, com a mesma aflição dos egípcios, dos gregos, do homem comum das épocas remotas. Os séculos que varreram civilizações e confundiram os povos, não transformaram, para eles, a misteriosa fisionomia da sepultura. Milenário ponto de interrogação, a morte, hoje, continua ferindo sentimentos e torturando inteligências”.
Para os que creem numa Sabedoria Previdente, num Poder Ordenador, sábio e justo, “a morte é um fato, um ensinamento austero, uma lição soberana”.
Há os que nascem, vivem e morrem sem nunca lhes preocupar os transcendentes problemas da existência, e essa espécie de indivíduos encontramos entre os doutos e os analfabetos.
O eminente cientista italiano, Ernesto Bozzano, de quem Guillon Ribeiro disse, no prefácio de A Crise da Morte: “… na execução do labor a que se consagrou com devotamento inexcedível e que o sagrou, no plano terreno, um dos mais admiráveis paladinos da obra de salvação, que cabe ao Espiritismo realizar”.
Da referida obra de Bozzano, reproduziremos algumas passagens referentes ao Sexto Caso: “Essa personalidade (Bozzano não faz referência ao nome do Espírito comunicante), que no curso de sua existência terrestre, fora conhecida da médium, era uma senhora distinta e de espírito muito culto, cujas opiniões foram, durante longo tempo, as de uma livre-pensadora, em matéria de religião, porém que se tornara espírita convencida nos últimos anos de sua vida”.
Eis o que escreve: “Eu sabia que ia morrer, mas não temia a morte, não fremia a essa ideia. Desde muito tempo, os terrores da ortodoxia haviam perdido toda a eficácia para minha alma; sentia-me pronta a enfrentar a inevitável crise com uma serenidade filosófica. Acrescentarei mesmo que havia alguma coisa de mais em meu estado dalma, pois que dispunha a observar e analisar, com interesse de uma pesquisadora, a lenta aproximação do grande momento. Não queria perder essa suprema ocasião de adquirir conhecimentos psicológicos que escapam às investigações da Ciência. Conservei-me, pois, como espectadora impassível dos lentos progressos da minha agonia, esperando poder comunicar mais tarde, aos assistentes, minhas observações e prestar assim um último serviço à humanidade: o de dissipar o terror que a hora fatal produz em toda gente.
Parecia que o meio terrestre se afastava em torno de mim; sentia-me como que flutuar fora do corpo, num desconhecido meio de existência. Não se deu comigo nada do que eu julgava dever experimentar durante a crise da morte. Assim, por exemplo, lera descrições interessantes acerca de uma espécie de um ‘epílogo da morte’, que nasceria da mentalidade dos moribundos, em consequência do qual todos os acontecimentos de suas vidas lhes passariam diante da visão subjetiva. Nada disso verificou-se comigo; não me sentia atraída nem pelo passado, nem pelo futuro. Um só pensamento e um só sentimento me dominava a consciência: das pessoas que me amavam e das quais me ia separar. Entretanto, jamais me considerara uma mulher excessivamente terna; levava minha razão a dominar todas as impulsões e todas as emoções. Julgo até que esse domínio de mim mesma exerceu influência muito favorável sobre o rendimento eficaz da atividade de minha vida. Contudo, nessa hora suprema, a afeição me pareceu o ponto mais alto e a substância de tudo o que há de apreciável na existência.
Esse estado de vigília atenta sobre a aproximação da morte acabou por me esgotar e, pouco a pouco, uma suave sonolência me invadiu. Era mesmo tão suave, de tal modo me repousava que, no curso desse período de semi-inconsciência, que parece ao estado de inconsciência total, (…)”
“(…) Despertei, (…) Esse despertar me pareceu ainda mais doce do que o período que me parecera ao sono. Não cuidava de abrir os olhos, permanecia a gozar daquela sensação de paz e de serenidade, que em vão desejara tantas vezes, no correr da minha existência tão provada. Como era delicioso! Que perfeito era aquele sentimento de paz! Oh, se ele pudesse durar eternamente! De toda a sorte, sentia-me bem; o que me mostrava que, afinal de contas, ainda não estava a ponto de morrer. … Súbito, ouvi algumas pessoas que conversavam a meia voz no quarto ao lado. Ouvindo, nitidamente, pela porta aberta, o que diziam, (…)”
Eis a frase em questão: “-‘Não duvido de que ela o fizesse com boa intenção; aliás, era tão excêntrica!’ A outra voz respondeu: ‘Sim, muito excêntrica e também obstinada nos seus caprichos’. A primeira replicou: ‘Foi muito experimentada pela infelicidade, mas também cumpre se reconheça que foi quase sempre a causadora de seus próprios infortúnios. É o que acontece as mais das vezes’. (…) E seguiu-se a narrativa, grotescamente desfigurada, de alguns incidentes da minha vida!
Eu estava surpresa: Falavam de mim e falavam empregando o verbo imperfeito: ‘- Ela era…’. Que quereriam dizer? Julgar-me-iam morta? Veio-me a ideia de que aquelas pessoas poderiam pensar mais tarde que fingia estar morta para lhes ouvir a conversação confidencial a meu respeito. Dei-me por isso pressa em chamar uma das minhas amigas, para lhe certificar que eu ainda vivia e me sentia muito melhor… Elas, porém, não se aperceberam do meu chamado e continuaram a conversar sem se interromperem. Chamei de novo, em voz mais alta, porém sempre em vão. Sentia-me tão bem de corpo e de espírito, que me decidi a lhes interromper as imprudentes apreciações, apresentando-me diante delas no outro quarto… Mas…, o que havia? Fiquei um instante presa de terror, ou de qualquer coisa semelhante. Que manequim era aquele que alguém deitara na minha cama, onde, entretanto, eu deveria estar, muito gravemente enferma, o qual jazia em meu lugar e com o rosto lívido, absolutamente idêntico a um cadáver no leito de morte? Eu o via de perfil; tinha os braços cruzados sobre o peito, as pernas rigidamente estendidas, as pontas dos pés viradas para cima. Sobre ele, um pano branco se achava desdobrado. Mas, coisa estranha! Eu o distinguia igualmente debaixo do pano e reconhecia naquele manequim os meus traços! Meu Deus! Estava então realmente morta? Enorme sensação me assaltou, que parecia abalar-me no mais profundo da alma. Só então foi que todo o meu passado emergiu de um jacto e me invadiu, com grande onda, à consciência. Tudo o que me haviam ensinado, tudo o que eu temera, tudo o que esperava com relação à grande passagem da morte e à existência espiritual se apresentou ao meu espírito com indescritível nitidez. Foi um momento solene e aterrador; porém, a sensação de terror se desvaneceu logo e só a solenidade grandiosa do acontecimento permaneceu…
(…) Éramos três a contemplar aquele cadáver, conquanto uma das três fosse invisível para as outras. E, como estas não percebiam a minha presença, desinteressei-me delas, para me absorver na contemplação do corpo inanimado, que fora meu. Observava-lhe o pálido aspecto, demudado pelos sofrimentos, e com a minha mão invisível procurava afastar da fronte os cabelos brancos que a cobriam, enquanto uma inefável piedade me oprimia a alma, ao pensar na sorte daquele corpo velho, do qual me sentia separada para sempre…
Estava então morta? Que estranha sensação a de uma pessoa saber-se morta e se sentir exuberante de vida! Como os vivos compreendem mal o sentido destas palavras. Estar morto significa estar animado de uma vitalidade diferente e extraordinária, de que a Humanidade não pode fazer ideia… Provavelmente, a morte se dera havia vinte e quatro horas. Eu adormecera no mundo dos vivos e despertara no meio espiritual. Como é estranho! Só nesse momento foi que me lembrei, pela primeira vez, de que estava no meio espiritual. Até ali, meus pensamentos e minhas emoções se tinham conservado presos ao mundo dos vivos!
Mas, onde estavam os espíritos de tantas pessoas caras, que haviam transposto antes de mim a fronteira da morte? Esperava vê-las acorrendo a me darem as boas-vindas no limiar da morada celeste e a me servirem em seguida de conselheiros e de guias. Não me preocupava o insulamento em que me achava e ainda menos me assustava; porém, experimentava um penoso sentimento de decepção e de desorientação. Em todo o caso, esse estado dalma não durou mais que um instante. Apenas formulara em meu espírito aqueles pensamentos, vi dissolver-se e desaparecer o quarto em que me encontrava e tudo que ele continha e me achei, não sei como, numa espécie de vasta planície… Era indescritível a beleza da paisagem. Bela também é a paisagem terrena, mas a celeste é muito mais maravilhosa… Caminhava; entretanto, coisa singular, meus pés não tocavam o solo. Deslisava sobre este, como sucede nos sonhos… Mas, onde estavam aqueles a quem eu amara? Onde estavam tantos amigos mortos, aos quais tão ligada estivera na Terra? Por que esse estado de insulamento na minha nova existência? Não tinha consciência de haver manifestado de viva voz meus pensamentos; todavia, como se alguém me houvesse escutado e se apressasse em me atender, vi diante de mim dois mancebos, cuja a radiosa beleza excedia a tudo o que o Espírito humano possa imaginar… Muitos anos antes, levara ao túmulo, com lágrima de desesperada dor, dois filhos que adorava: um após outro. E muitas vezes a chorar sobre suas sepulturas, estendera os braços para a frente, como se contasse reavê-los à morte que os arrebatara. Ó! meus filhos! meus filhos! Quanto os desejara!… Quando vi diante de mim aqueles mancebos radiosos, um instinto súbito e infalível me preveniu de que eles eram os meus filhinhos, que se haviam tornado adultos. Não hesitei um instante em os reconhecer. Estendi-lhes os braços, como fizera outrora na Terra, e dessa vez os apertei realmente ao peito! Oh, meus filhos, meus filhos! Enfim tornei a encontrar-vos! Oh, meus filhos, meus para sempre!…”
(…) Ela pergunta ao Espírito-Guia: “Por que fui condenada a passar de um mundo a outro completamente só?” O Espírito-Guia: “ ‘Condenada’ não é o termo, minha querida amiga. Não estavas só. Assim te parecia, mas, na realidade, eu velava ansiosamente por ti, com muitos outros Espíritos de parentes e de amigos, aguardando o momento em que nos fosse possível manifestarmos a ti. Para muitas almas de mortos a passagem do mundo dos mortais para o dos imortais é um período de crise moral muito dolorosa; esses seres imploram a assistência imediata dos entes caros que os possam confortar e animar, até ao momento em que se hajam familiarizado com o novo meio. Tu, porém, não eras uma alma como tantas outras. No curso das vicissitudes mais críticas da vida, preferiste sempre agir sozinha; encerraste constantemente no fundo da alma teus pensamentos, tuas meditações, o fruto da tua experiência, mesmo tuas emoções. Soubeste, com uma firmeza de heroína, encarar de frente a morte. Ora, a um temperamento como o teu convinha que, no meio espiritual, se achasse num insulamento aparente, para melhor apreciar em seguida o valor da sociedade espiritual. Entretanto, desde que sentiste a necessidade de companhia e a desejaste com o pensamento, imediatamente nos achamos em condições de responder ao teu chamado.”
E em suas palavras finais, o Guia-Espiritual registra: “- Soubeste, com uma firmeza de heroína, encarar de frente a morte”.
(Do Anuário Espírita 2012)