Carlos A. Baccelli
Sabemos, pelo Codificador, que o Espiritismo é uma doutrina dinâmica, ou seja, de revelação gradativa da Verdade, conforme escreveu o próprio Allan Kardec na introdução de “O Livro dos Espíritos”: “o estudo do Espiritismo é imenso; liga-se a todas as questões da metafísica e da ordem social; é todo um mundo que se abre ante nós. Será de espantar que ele exija tempo, e muito tempo, para a sua realização?”.
A rigor, não há, pois, quem possa dizer que conheça o Espiritismo por inteiro, posto que o seu edifício doutrinário ainda se encontre muito longe de ser respaldado. Quem mais o estuda e o sabe não lhe apreende mais que os Princípios Fundamentais nos quais, do ponto de vista filosófico, ele se alicerça.
Os Espíritos Superiores ainda não nos transmitiram tudo que, por exemplo, podemos saber sobre a Lei da Reencarnação e mesmo sobre as condições de vida do espírito no Mundo Espiritual.
O livro Cartas de Uma Morta, por Maria João de Deus, na lavra mediúnica de Chico Xavier, psicografado em 1935, contém mero esboço do que, a partir de 1943 – oito anos depois! –, André Luiz começaria a desenvolver na obra “Nosso Lar”.
O próprio O Livro dos Espíritos, em sua 1ª edição, possuía apenas 501 questões – daí a três anos, em 1860, quando de sua 2ª edição, ele aparece consideravelmente aumentado, abrangendo 1.019 delas!
A verdade é que, ante o vertiginoso avanço da Ciência – e isto em todas as suas áreas –, o Espiritismo, doutrinariamente, de modo a satisfazer o intelecto mais exigente, sempre carecerá de se modernizar. Não é por outro motivo que ele se apoia na Fé Raciocinada. Como escreveu Léon Denis: “Hoje, já não basta crer: quer-se saber!” – e convenhamos, quer-se saber cada vez mais!
Nesta linha de reflexão, muitos, naturalmente, questionam como há de ser o futuro do Espiritismo: Continuará evoluindo ou, como as demais religiões, se fechará em dogmas?! Não nos esqueçamos de que as consideradas maiores religiões – Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Islamismo e Catolicismo – prosseguem ensinando hoje o que ensinavam séculos atrás.
Dentro do Espiritismo, igualmente, temos observado, por parte dos conservadores, certa tendência ao dogma e à ortodoxia – de companheiros que nada admitem além de quanto não esteja em Kardec! E, externando agora a nossa opinião, se o Espiritismo estiver todo em Kardec, de modo a não se ter o que lhe acrescentar, então ele é muito pouco!
Talvez, por este motivo, o Codificador, com o seu extraordinário bom senso, tenha escrito que: “O Espiritismo será científico ou não sobreviverá.”
O avanço contemporâneo da Ciência – repetimos – já está a exigir que o Espiritismo seja uma doutrina de mentalidade aberta, o que não significa que, para tanto, ela deva se despojar do discernimento, tanto na análise dos comunicados de além-túmulo que chegam e haverão de continuar chegando, através de outros médiuns, quanto da pesquisa científica propriamente dita.
Com base no exposto, voltamos a perguntar: Que sucederá ao Espiritismo?! O seu Movimento tenderá a copiar os demais movimentos religiosos, que “engessaram” as próprias concepções filosóficas nas quais se estruturam?! De nossa parte, cremos que isso poderá ocorrer, sim, pois, infelizmente, já se nota certa tendência à igrejificação da Doutrina! Escreveu André Luiz, através de Chico Xavier, que “a ortodoxia costuma ser o cadáver da revelação.”
Todavia, como está na Natureza e é tão velho quanto o mundo, e mais, quanto à própria Criação Divina, o Espiritismo, por ser o estudo dinâmico da Verdade que liberta, acabará por se impor aos mesquinhos interesses humanos. Na questão 798, de O Livro dos Espíritos, está escrito sobre o Espiritismo: “Certamente, ele se tornará uma crença comum e marcará uma nova era na história da Humanidade, porque pertence à Natureza, e chegou o tempo em que ele deve tomar lugar nos conhecimentos humanos. Haverá, entretanto, grandes lutas a sustentar, mais ainda contra os interesses do que contra a convicção, porque não se pode dissimular que há pessoas interessadas em combatê-lo, umas por amor próprio e outras por motivos puramente materiais. Mas os seus contraditores, encontrando-se cada vez mais isolados, serão finalmente forçados a pensar como todos os outros, sob pena de se tornarem ridículos.”
Essas “grandes lutas a sustentar”, no caso do Espiritismo, infelizmente, possuem duplo caráter: são lutas externas, na oposição natural que lhe movem os adeptos de outras crenças, e lutas internas, através do inconcebível jogo de interesses entre os seus próprios seguidores, que ainda não lhe puderam assimilar o sentido transcendente.
Seja, porém, como for, de acordo com a nossa óptica, o futuro do Espiritismo, por mais que, como Revelação, expanda-se e cresça, está no Evangelho do Cristo! Cremos que a tarefa da Verdade seja, apenas e tão somente, a de nos conscientizar em torno da necessidade de nos amarmos uns aos outros.
A vivência do Evangelho será o coroamento da obra do Espiritismo, porque é justamente neste campo que ele se mostra uma doutrina de vanguarda!
Certa vez, lemos um artigo no qual o autor dizia que a “novidade exportável” do Espiritismo no Brasil para o mundo é o Evangelho! Sim, porquanto a tese da Reencarnação, por exemplo, como a da Mediunidade, e outras, é anterior ao surgimento do Espiritismo como doutrina codificada! A rigor, Reencarnação, Mediunidade, Lei de Causa e Efeito, et cetera, não se constituem em novidade para a Humanidade – sem que seja espírita, quase 2/3 dela admitem a crença na Reencarnação! A mediunidade, por sua vez, tem sido praticada desde os tempos mais remotos. Como dizia Chico Xavier, “a Bíblia, de capa a capa, é um livro de mediunidade!”
Se assim podemos nos expressar, a novidade espírita para o mundo, ou melhor, a novidade espírita exportável do Brasil para o mundo é o fato de tais conhecimentos doutrinários apontarem, com o Cristo, para a urgente necessidade de o homem se renovar interiormente. Por outras palavras, o objetivo do conhecimento espírita é fazer com que o adepto do Espiritismo se torne cristão, porque, a fim de realizar-se espiritualmente, o espírito não carece ser mais do que ser cristão!
Por tal motivo, afirmamos que o futuro do Espiritismo é o Evangelho! Tudo que venhamos a saber a respeito da Vida e de nós mesmos não interessa mais à inteligência que ao coração.
Quanto à afirmação de alguns, segundo a qual escrever O Evangelho Segundo o Espiritismo foi um momento de fraqueza do Codificador, a nosso ver, trata-se de grande equívoco de interpretação, e, desculpem-nos, demonstração de falsa intelectualidade.
Logo após publicar O Livro dos Espíritos, em 1857, e O Livro dos Médiuns, em 1861, Kardec, inspirado pelo Espírito de Verdade, sentiu necessidade, em 1864, de trazer a lume O Evangelho Segundo o Espiritismo, para que esta magnífica obra controlasse os anseios humanos de continuar conhecendo sem proveito e, assim, “lhe preservasse de abalos a razão!”
Portanto, cabe, aos espíritas no Brasil, a responsabilidade de sustentar o vínculo da Revelação Espírita com o Evangelho de Jesus, pois, caso contrário, o Espiritismo não passará de mais uma doutrina de esoterismo, como tantas e tantas outras que, há séculos, operam no mundo sem conseguirem induzir o homem à introspecção, modificando-lhe os paradigmas existenciais.
Do Espiritismo como doutrina, o Evangelho é a força de sustentação!
No 154º ano da publicação de O Evangelho Segundo o Espiritismo, saudamos a coragem de Allan Kardec, em quem entrevemos a respeitável resolução moral de editar esta obra, não apenas enfrentou o fanatismo religioso da época, expondo a sua própria vida (as fogueiras da Inquisição ainda não se haviam apagado de todo!), como não teve receio da opinião dos modernos escribas e fariseus, que ainda continuam tendo medo da Mensagem que o Cristo veio trazer ao mundo, porque essa Mensagem, a mais revolucionária de todos os tempos, pede-nos o que muito poucos têm coragem de fazer – abdicar de si mesmos!…
(Do Anuário Espírita 2014)