(As Bem-aventuranças)
Entardecia! O Sol lançava seus últimos raios que se refletiam nas águas calmas do Lago de Genesaré, pincelando de luzes toda a paisagem em redor, que, no entanto, pouco a pouco, vai perdendo seu brilho. Uma brisa suave soprava na direção do grande lago.
O crepúsculo descia sobre Cafarnaum envolvendo a cidade na calma da quase noite.
Ao longo de toda a encosta ia-se formando uma multidão imensa. Eram lavradores simples, pescadores, homens maltrapilhos, mulheres do povo com seus filhinhos no colo, velhinhos e muitos doentes que se destacavam entre os homens fortes e sadios.
Todos aguardavam ansiosos para ouvir as palavras do meigo Rabi da Galileia e todos os olhares se desviaram para a figura do Mestre que surgia na eminência do monte, seguido de seus discípulos.
Sua voz forte, mas suave, ecoou pelo entardecer, gravando-se para sempre nos corações desditosos que o ouviam, refletindo nos séculos futuros, para os desditosos de todos os tempos:
“– Bem-aventurados os pobres de Espírito, porque deles é o Reino dos Céus.”
Pobres de espírito, os humildes, isentos do insano orgulho que nos faz crer que somos mais do que somos. São os simples de coração, livres das ambições e da ganância que desviam os homens do caminho correto que leva à harmonia interior e ao desabrochar do Reino em seus corações.
“– Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados!”
Todos ali já sentiam muitas lágrimas rolarem de seus olhos. Lágrimas que lavavam a alma. Chorando, estavam pedindo, buscando, consciente ou inconscientemente a Deus.
“– Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra!”
“Herdarão a Terra”, palavras difíceis de compreender naquele momento, mas sim, eles eram os mansos, os desprezados, os esquecidos, a ralé, ignorados pelo Grande Império Romano.
“– Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos!”
Ah, sedentos de justiça, e como! Mas a justiça dos homens os havia esquecido pela total indiferença dos que detinham o poder. No entanto aquele homem afirmava – “serão fartos”.
“– Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia!”
Misericórdia, perdão em gestos de amor que socorrem, auxiliam. O sofrimento unia aquela multidão que aprendera a se ajudar reciprocamente, sem nada perguntar, sem julgar. Necessitavam uns dos outros.
A multidão se enchia de esperança. Uma paz, até então ignorada invadia os corações. Pela primeira vez, sentiam-se valorizados. Ignorados e esquecidos pelo Império, mas contemplados, distinguidos, valorizados por Deus.
A brisa amena soprava na tarde serena, e Jesus continuava:
“– Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus!”
Um estado de euforia invadiu a multidão. Compreendiam: limpar o coração para que sentimentos puros desabrochassem em suas almas, para “ver” a Deus, sentir a presença Divina em si mesmos. Já não era possível deter as lágrimas que rompiam as comportas da alma em esperança, alegria incontida e uma paz inigualável,
“– Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus!”
Enquanto os poderosos conquistavam à força das armas, em lutas cruéis e insanas, aqueles homens sentiam necessidade de paz, de brandura, de bondade.
“Filhos de Deus”. A euforia se transformava em êxtase.
“– Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus!”
Sofrer por fidelidade à Justiça Divina, “deles é o Reino dos Céus”. Imensa claridade lhes invadia a mente, compreendendo agora o sentido da vida. Desejo intenso de seguir aquele homem que lhes calara fundo ao coração.
Depois de curto interregno, o Mestre arrematou:
“– Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, e perseguirem, e mentindo disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande é o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós!”
O cântico do monte invadia os corações, as bem-aventuranças atingiam o clímax.
“Exultai e alegrai-vos”. A multidão exultava. Olhavam-se uns aos outros, irmanados na mesma esperança e na alegria incontida.
O sermão do monte é uma fonte inexaurível de esperança e paz que ecoaria pelos tempos afora, consolando, mas também orientando para o caminho que conduz à verdadeira vida imortal.
O vento manso da tarde ainda soprava, farfalhando suave murmúrio ao baloiçar as copas das árvores em derredor, quando o Mestre, após pausa intencional, continuou:
“– Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar?”
“– Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte.”
“– Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.”
Júbilo intenso invade a multidão, que já não segura as emoções que explodem de esperança em seu coração. Ignorados e esquecidos, a ralé da sociedade e, no entanto, a frase ecoaria em seus ouvidos para sempre: “vós sois a luz do mundo”.
O doce canto do monte prossegue, suave, mas vibrante:
“– Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.”
“– Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.”
“– Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus.”
A noite desceu sobre Cafarnaum. A canção do monte foi chegando ao fim.
“– Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam.”
“– Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.”
“– Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”
As primeiras estrelas já brilhavam no firmamento quando Jesus terminou o inigualável sermão do monte.
Enorme esperança e uma paz indefinível invadia o coração de todos. Algumas mulheres se aproximaram, mostrando seus filhos, para que Ele os abençoasse. Velhinhos Lhe tomavam as mãos e as beijavam. No coração de todos pulsava a esperança e a gratidão.
Pouco a pouco, a multidão foi se dispersando, tomada de imenso conforto.
Jesus desceu o monte e seguiu adiante. Lá em cima, as estrelas cintilavam, testemunhas silenciosas do cântico de luz, de esperança, de fé, e das lições imorredouras que seriam cantadas nos séculos futuros para toda a humanidade.
(Do Livro “Anuário Espírita 2018”)
Walter Oliveira Alves