Marival Veloso de Matos
DA SIGNIFICAÇÃO ETIMOLÓGICA
Per=Prefixo designativo de intensidade ou aumento. Superlativo, pleno, máximo, absoluto. (Lello Universal)
Está presente em PERmanecer, em PERturbar, PERito (tratando-se do sabedor, do hábil, do douto em determinado assunto ou tema). Os exemplos são abundantes.
Dão= De doar. V.t. (lat. donare) o que se transmite gratuitamente a outrem (Lello Universal).
PERDÃO, portanto, do ponto de vista de suas raízes, quer dizer: a doação máxima que podemos fazer uns aos outros.
No sentido tradicional é quando o credor desobriga o devedor do débito. Isto é, faz a remissão da dívida. Exemplo maior vamos encontrar na parábola dos credores e dos devedores na qual, um indivíduo é perdoado em dez mil denários, todavia não se pejou de trancafiar na prisão o seu devedor e familiares, por causa de cem dinheiros. ) – MT – XVIII – 23 a 35.
O vocábulo é tão apropriado, corresponde tão bem ao que se propõe, que nas diversas línguas neolatinas poder-se-á dizer que do ponto de vista etimológico não sofre mudanças fundamentais:
No francês é Pardon
No italiano é Perdone
No espanhol é Perdon
No português (última flor do Lácio, inculta e bela, no dizer do nosso grande poeta Olavo Bilac), é Perdão.
O PERDÃO SOB VÁRIOS ASPECTOS
Carregamos conosco a convicção de que quanto aos efeitos, os resultados pela aplicação do PERDÃO, podemos encontrá-los facilmente sob os três aspectos que formam o monolítico arcabouço espírita-cristão, senão vejamos:
CIENTÍFICO
Há alguns anos causou-nos agradável surpresa quando em uma clínica médica, aqui em Belo Horizonte, líamos em bem formatado cartaz:
Quer saúde?
Faça as pazes,
Perdoe.
Nosso prematuro pensamento foi: Isto aqui é uma clínica médica ou uma capela de orações? Mas como espíritas não encontramos dificuldades para nos situarmos na realidade que aos poucos foi ocorrendo. Entendemos de pronto o sentido holístico daquela exortação, estampada na parede. É que hoje a Medicina está plenamente ciente de que as doenças crônicas, rebeldes, que não respondem a determinadas prescrições, encontram barreiras intransponíveis no ódio, no rancor, nos sentimentos negativos em forma de ciúme, de inveja, etc.
Diz-nos, ao nosso ver, judiciosamente, Thorwald Dethlefsen Rudger Dahlke, em seu livro A Doença Como Caminho – Ed. Cultrix-2004, Trad. de Zilda Hutchinson Schild, p. 240: “O câncer só sente respeito pelo amor verdadeiro. E o símbolo do amor perfeito é o coração.” E conclui dizendo: “o coração é o único órgão que não pode ser atacado pelo câncer”. (o destaque é nosso)*
Cristina Cairo, em seu Site Oficial, comentando sobre o livro Evangelho e Saúde, entre outros comentários, afirma: “… O organismo reconhece as emoções, geradas por essa conduta que Cristo ensina como boas para o seu funcionamento, e assim promove a cura de qualquer distúrbio ou doença. O PERDÃO (destacamos), o Amor e o respeito ao próximo levam à máxima que é amar ao próximo como a si mesmo”. Como se vê, não estamos diante de pregações meramente do ponto de vista religioso, mas eminentemente científico.
Para conforto dos que cerramos fileira nesse arcabouço monumental chamado Doutrina dos Espíritos, ficamos tranqüilos com o aspecto holístico, cuja visão aos poucos vai sendo implantada, porque desde o advento da Codificação Espírita que temos sido informados a respeito. Observem: o tripé espírita compõe-se de ciência, filosofia e religião.
Na conscientização de sermos um todo inter-relacionado ou holístico, já dito aqui, acreditamos que se lembrarmos dos SISTEMAS que trazemos nas nossas individualidades (antes porém pedindo permissão para fazê-lo, visto não sermos versados em ciência):
O Sistema Nervoso Central (que percorre todo o corpo como fios de uma teia);
O Sistema Endócrino (formado por diversos órgãos que secretam hormônios, substâncias que agem à distância);
O Sistema Imunológico (cuja ação é nos manter saudáveis). Estão esses três sistemas entrelaçados, intercomunicantes e interdependentes. Trocam informes entre si. (Apostila Autoimunidade e Psicossomática, de Gilmar Domingos Cardoso, 04/2002).
Esse inderrogável relacionamento é que, do ponto de vista físico, representa supedâneo seguro para entendermos que, dependendo do tipo de música que ouvirmos, nos alegramos ou entristecemos. Que, ouvindo alguém descrever com minudências certa iguaria que apreciamos, e se, principalmente, estivermos carentes de alimentação, sentimos salivação abundante e aparentemente gratuita.
Ou nos tornamos pálidos e trêmulos se ouvirmos o barulho de “cantar de pneus no asfalto”, defronte à nossa residência, ante a suposição de ser um acidente.
Fácil então de entendermos por que o sentimento mórbido, doentio, bloqueador, do ódio, do sentimento negativo, acabam por afetar as células da nossa organização fisiológica que, pela sua intensidade, afetam com certa profundidade nossos outros campos além do físico.
Na já citada obra A Doença Como Caminho, p. 7, deparamos: “… O doente não é uma vítima inocente de alguma imperfeição da Natureza, mas que é de fato o autor de sua doença”. E à p. 14 do referido livro, que reputamos de intensa sabedoria, a seguinte afirmativa: “O corpo material é o palco em que as imagens da consciência se esforçam por se expressar”. Portanto, a doença, inegavelmente é manifestação que se expressa do centro para a periferia. O citado autor agora, à p. 17, diz textualmente que “a doença é um estado do ser humano que indica que, na sua consciência, ela não está mais em ordem, ou seja, sua consciência registra que não há harmonia. Essa perda de equilíbrio interior se manifesta no corpo como um sintoma. Sendo assim, o sintoma é um sinal e um transmissor de informação.” O autor ora citado, entre outros “consideranduns”, nos remete ao entendimento de que será altamente positivo para a nossa vida como um todo, o aprender a fazer “leituras”, buscar interpretar o porquê de nossos desarranjos também como um todo, dando-nos assim o ca-bedal necessário para as mudanças que precisamos operar em nós. Como sempre nos dizia o nosso saudoso irmão, sábio e virtuoso Leão Zálio, que afirmava convicto: “Tudo muda, só não muda a Lei da Mudança porque muda toda hora”. Recordamo-nos da perene fala do iluminado Emmanuel, quando nos aconselha elegermos como programa de nossa caminhada adentrarmos sempre o que ele judiciosamente chama de bênção do recomeço”. Ou pela fala pioneira do insigne codificador Allan Kardec, ao afirmar, peremptório, ser traço marcante do Espírita pugnar pela transformação moral e de porfiar sempre para domar suas más ten-dências. E como que para demonstrar toda a legítima interação entre os dois ba-luartes espiritistas, é o mentor espiritual de nosso sempre lembrado Chico Xa-vier quem nos afirma: “Somos herdeiros de tendências em busca de qualidade”.
FILOSÓFICO
No sentido de responder às nossas indagações, aos nossos “porquês”, quando pretendemos nos situar no contexto do cotidiano, como, por exemplo, por que me dou bem com fulano sem o mínimo esforço e por mais me esforce não consigo relacionar-me satisfatória e espontaneamente com sicrano? Em outras palavras, qual o porquê das simpatias e antipatias gratuitas? Uma série de perguntas povoam o nosso dia-a-dia e que a Religião dos Espíritos nos elucida de modo claro, objetivo e transparente. Via de regra são desacertos, desavenças em razão do orgulho, do ciúme, da vaidade, o personalismo exacerbado que acabaram, por décadas a fora, constituir-se em imensa montanha de dificuldades. Escabrosidades essas que fazem com que nossas vidas, ao longo da caminhada evolutiva, representem veredas eivadas de urzes e espinhos. Não fosse a bênção do esclarecimento espírita-cristão que, como diz o insigne Léon Denis, “luariza de esperança a noite de nossas vidas”, não saberíamos como nos livrar de tais óbices, muitos de nós, após porfiada luta confrontada com a dor e o sofrimento. No caso de se chegar a situações extremas do pleito obsessivo, bastas vezes o obsidiado, diante da ação insistente e desagradável do obsessor, indaga: Por que eu? A resposta pode estar num relacionamento mal conduzido de antanho, envolvendo criaturas que se digladiaram e se envolveram no cipoal do ódio no passado e que hoje se reencontram lamentavelmente em bases de recíprocos sentimentos deteriorados.
O fato de estarmos cientes dessas verdades nos credenciam a ver no PERDÃO o grande e infalível instrumental desobstruidor dos pedrouços da caminhada evolutiva. Dificuldades que sabemos, varam túmulos e séculos se não procuramos anestesiá-las sob o efeito do AMOR.
RELIGIOSO
É fundamental para o Cristianismo a prática do Amor ao Próximo. (Por 34 vezes, o Novo Testamento nos recomenda o PERDÃO no sentido de absolver, remir).
No Capítulo XV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, em seus itens 4 e 5, citando o Ev. de Mateus – Cap. XXII – 34 a 40 diz:
“Mas os Fariseus, tendo sabido que Ele tapara a boca aos Saduceus, reuniram-se e um deles, que era doutor da lei, veio lhe fazer esta pergunta para o tentar: Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Jesus lhe respondeu: Amareis o Senhor vosso Deus de todo o vosso coração, de toda a vossa alma e de todo o vosso espírito. Eis aí o maior e o primeiro mandamento. Eis o segundo que é semelhante a este: Amareis vosso próximo como a vós mesmos. Toda a lei e os profetas estão contidos nesses dois mandamentos”.
Nos comentários que se seguem naquela obra, a grande senha para a salvação é representada pela Caridade e pela Humildade. Ora, não existe Caridade que não possua as qualidades propostas pelo inesquecível apóstolo Paulo, ao nos falar de uma caridade sem restrições, constituindo-se num hino de amor e ternura, quando envia sua 1ª Epístola aos Coríntios – XIII – 1 a 7 e 13. Impossível falar de Amor sem falar de Perdão. É conclusivo, portanto, que “Não podendo amar a Deus, sem praticar a caridade para com o próximo; todos os deveres do homem se encontram resumidos na máxima “FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO”.
E diante da lógica beleza da Doutrina revelada pelos Espíritos, inegavelmente o Cristianismo Redivivo, nos termos de O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XV, n° 10, observemos o que nos oferece a questão 886 de O Livro dos Espíritos, esta monumental pedra angular da Codificação:
P – Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendeu Jesus?
R – Benevolência para com todos,
Indulgência para as imperfeições alheias,
PERDÃO das ofensas.
Além do que, é imperioso lembrar que o Perdão não é via de mão única. Isto é, em face dos envolvidos nos acertos em que o objetivo seja o exercício do Perdão, carece lembrarmos que tanto o ofendido, quanto o ofensor precisam da reciprocidade do Perdão, pois pode ter acontecido que o início da querela se deu há séculos, sendo que hoje não sabemos precisar qual dos dois deu início à contenda.
Oportuno lembrar ainda que o “perdoador” é, sem sombra de dúvida, o grande e imediato beneficiado da demanda ora desfeita, se for o caso.
Encerramos esses toscos considerandos acerca do Perdão, pedindo licença para trasladar da revista Sabedoria do Evangelho – Vol. 2, de Carlos Torres Pastorino, pp. 153/154, a seguinte equação que nos ensina sair da roda-viva da malquerência, que como tentamos demonstrar, trazem conseqüências funestas para quem a cultua:
Figurando o mal pelo negativo (-) e o bem pelo positivo (+), e o perdão pelo 0 (zero), temos as seguintes equações:
(-1) + (-1) = -2 – mal feito mais mal retribuído = mal duplo
(-1) + 0 = -1 – mal feito mais perdão = 1 mal
(-1) + (+1) = 0 – mal feito mais benefício prestado = mal anulado.
Conclui Pastorino, com a sapiência que lhe é proverbial: “Então, matematicamente se prova que só o bem praticado em favor de quem nos faz o mal é que consegue extirpar a dor e o sofrimento da face da Terra”.
Marival Veloso de Matos
Rua Astolfo Dutra 304 – Pompéia
30280-340 – Belo Horizonte – MG
(Do Anuário Espírita 2008)